terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O caos e a poesia

A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o
afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente.
A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. [...]
A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que "descobre" um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos.
Chamamos consciência - e mente, e também civilização - ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.
Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho.
Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu
guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado.
O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e
gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da
convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol.
Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o
guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da
decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário.
Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma
parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em
movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos.
Mas finalmente nosso teto não nos ilude mais. É gesso pintado, e nem todo o engenho de todas as épocas da humanidade conseguirá mais nos enganar. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman: oba!, pintaram no gesso de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso, como o ar e o espaço passarinheiro e o caos de muitas coisas - em parte porque o afresco desbotou. Mas ainda assim, ficamos felizes em sair daquela igreja, e entrar no caos natural.
Esta é a grave crise para a humanidade, quando temos que voltar ao caos. Enquanto o guarda-chuva servir, e o poeta fizer furos nele, e a massa de gente puder ser gradualmente educada para a visão no furo: o que significa que eles o remendam com um remendo que se parece com a visão no furo: enquanto esse processo puder continuar, e a humanidade puder ser educada, e assim encaixada, a civilização continuará mais ou menos feliz, completando sua própria e pintada prisão. Isso chama-se completar a consciência.
A alegria que os homens tiveram quando Wordsworth, por exemplo, fez um furo e viu uma prímula! Até
então, os homens tinha visto uma prímula apenas obscuramente, na sombra do guarda-chuva. Eles a viram por meio de Wordsworth no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, acabamos por ver na primavera nada mais do que prímulas. O que significa que remendamos o furo.
E a grande alegria quando Shakespeare fez um grande rasgo e viu o homem emocional e desejoso ao
desabrigo, no caos, para além da idéia convencional e do guarda-chuva pintado das imagens morais e dos
rígidos paladinos, que foram instituídos na Idade Média. Mas agora, que pena!, o teto de nossa abóbada está simplesmente todo pintado de Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está fixada e completa. O homem não pode ser absolutamente diferente dessa imagem. O caos fica inteiramente do lado de fora.
O guarda-chuva ficou tão grande, os remendos e o gesso estão tão rígidos e duros que ele não pode ser mais furado. Se fosse furado, a abertura não seria mais uma visão, mas apenas uma afronta. Deveríamos borrá-lo todo de uma vez, para combinar com o resto.
Assim, o guarda-chuva torna-se absoluto. E assim o desejo do caos torna-se nostalgia. E isso continuará até
que algum vento terrível parta o guarda-chuva em tiras, e destine a maior parte da humanidade ao
esquecimento. O resto gelará em meio ao caos. Pois o caos está sempre ali, e sempre estará, não importa como armemos guarda-chuvas de visões.
E que dizer dos poetas, então, nesse intervalo? Eles revelam o desejo interior da humanidade. O que eles
revelam? Eles mostram o desejo de caos, e o medo do caos. O desejo de caos é o sopro de sua poesia. O medo do caos está em seu desfile de formas e técnica. A poesia é feita de palavras, dizem eles. Assim, eles sopram bolhas de som e imagem, que logo explodem com o sopro do desejo de caos de que estão plenos. Mas os poetastros podem fazer reluzentes bolhas para a árvore de Natal, que nunca explodem, porque não existe qualquer sopro de poesia nelas, mas elas ficam lá até que as derrubemos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Instruções para Cantar


Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Grávida..


Eu tô grávida 
Grávida de um beija-flor 
Grávida de terra 
De um liquidificador 
E vou parir 
Um terremoto, uma bomba, uma cor 
Uma locomotiva a vapor 
Um corredor

Eu tô grávida 
Esperando um avião 
Cada vez mais grávida 
Estou grávida de chão 
E vou parir 
Sobre a cidade 
Quando a noite contrair 
E quando o sol dilatar 
Dar à luz

Eu tô grávida 
De uma nota musical 
De um automóvel 
De uma árvore de Natal 
E vou parir 
Uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional 
Um cartão postal

Eu tô grávida 
Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão 
E vou parir 
Sobre a cidade 
Quando a noite contrair 
E quando o sol dilatar 
Vou dar a luz..

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Convite ao Vôo


"Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.
Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que será. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século 21, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e , pior ainda, do milênio passado.
Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível: o ar estará livre de todo o veneno que não vier dos medos humanos e das paixões humanas; nas ruas os automóveis serão esmagados pelos cães; as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador; nem compradas pelo supermercado, nem olhadas pelo televisor; o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa; as pessoas trabalharão para viver, em vez de viver para trabalhar; será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, em vez de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca; em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo; os economistas não chamarão nível de vida de nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas; os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de serem fervidas vivas; os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos; os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas; ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério; a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento ou fortuna o canalha será transformado em virtuoso cavaleiro; ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém; o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se em falência; a comida não será uma mercadoria e nem a informação um negócio, por que a comida e a informação são direitos humanos; ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão; os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua; os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos; a educação não será privilégio de quem possa pagá-la; a polícia não será o terror de quem não possa pagá-la; a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro contra ombro; uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru; na Argentina, as loucas da Praça de Mayo serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer dos tempos da amnésia obrigatória; a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo; a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte"; serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perdem de tanto procurar; seremos compatriotas e contemporâneos de todos que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo; a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas, neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."

Eduardo Galeano - De pernas pro ar, 1999


terça-feira, 22 de maio de 2012

"A noivinha em pranto:
– São horas? Um homem casado? De chegar?
O boêmio fazendo meia volta, no passinho do samba de breque:
– Não cheguei, minha flor. Só vim buscar o violão."

(Dalton Trevisan, em “99 corruíras nanicas”)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Erva do Diabo



"Para mi solo recorrer los caminos que tienen corazon, cualquier camino que tenga corazon. Por ahi yo recorro, y la unica prueba que vale es atravesar todo su largo. Y por ahi yo recorro mirando, mirando, sin aliento."
-Dom  Juan

"... não se pode tentar mais nada do que estabelecer o princípio e a direção de um estrada infinitamente longa. A pretensão de qualquer  plenitude sistemática e definitiva seria, pelo menos, uma auto-ilusão. A perfeição só pode ser obtida pelo estudante individual no sentido subjetivo, de que ele comunica tudo quanto conseguiu ver."
-Georg Simmel


"A Erva do Diabo - Os ensinamentos de dom Juan"Carlos Castaneda

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