sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Convite ao Vôo


"Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.
Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que será. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século 21, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e , pior ainda, do milênio passado.
Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível: o ar estará livre de todo o veneno que não vier dos medos humanos e das paixões humanas; nas ruas os automóveis serão esmagados pelos cães; as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador; nem compradas pelo supermercado, nem olhadas pelo televisor; o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa; as pessoas trabalharão para viver, em vez de viver para trabalhar; será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, em vez de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca; em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo; os economistas não chamarão nível de vida de nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas; os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de serem fervidas vivas; os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos; os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas; ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério; a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento ou fortuna o canalha será transformado em virtuoso cavaleiro; ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém; o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se em falência; a comida não será uma mercadoria e nem a informação um negócio, por que a comida e a informação são direitos humanos; ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão; os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua; os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos; a educação não será privilégio de quem possa pagá-la; a polícia não será o terror de quem não possa pagá-la; a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro contra ombro; uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru; na Argentina, as loucas da Praça de Mayo serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer dos tempos da amnésia obrigatória; a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo; a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte"; serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perdem de tanto procurar; seremos compatriotas e contemporâneos de todos que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo; a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas, neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."

Eduardo Galeano - De pernas pro ar, 1999


terça-feira, 22 de maio de 2012

"A noivinha em pranto:
– São horas? Um homem casado? De chegar?
O boêmio fazendo meia volta, no passinho do samba de breque:
– Não cheguei, minha flor. Só vim buscar o violão."

(Dalton Trevisan, em “99 corruíras nanicas”)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Erva do Diabo



"Para mi solo recorrer los caminos que tienen corazon, cualquier camino que tenga corazon. Por ahi yo recorro, y la unica prueba que vale es atravesar todo su largo. Y por ahi yo recorro mirando, mirando, sin aliento."
-Dom  Juan

"... não se pode tentar mais nada do que estabelecer o princípio e a direção de um estrada infinitamente longa. A pretensão de qualquer  plenitude sistemática e definitiva seria, pelo menos, uma auto-ilusão. A perfeição só pode ser obtida pelo estudante individual no sentido subjetivo, de que ele comunica tudo quanto conseguiu ver."
-Georg Simmel


"A Erva do Diabo - Os ensinamentos de dom Juan"Carlos Castaneda

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jean Arp e as estrelas artificiais



Meus trovões me despertaram do profundo sono como sempre.

Tateei o criado-mudo à esquerda até encontrar meus óculos. Ainda sonolenta, névoa sobre a realidade, fui colocá-lo no rosto e entrei em pânico – minha cabeça havia desaparecido. Corri ao espelho rapidamente e, do reflexo sem reflexão, surgiu a comprovação: eu não tinha mais uma cabeça. Meu corpo terminava no pescoço. Uma escultura de Jean Arp numa situação surrealista, ainda era inexplicavelmente detentora de todos os sentidos, contudo fisicamente mutilada.

A presença dele seria minha razão agora... senti. Perdida, sentei no sofá úmido pela constante chuva que lavava as poucas almas da região. O cheiro de mofo rescendia da vizinhança. Constantemente, passava a mão curiosa pelo toco acima de meu peito. Apesar do desconforto, estava calma, quase que feliz em liberdade inesperada.

As memórias que restavam em locais refutados de mim me alertavam sobre as últimas discussões que tive com minha cabeça. Nos intimidamos, confrontamos, levantamos hipóteses de abandono mútuo. Estava claro que as ameaças tinham se concretizado. Onde poderia achar meu crânio desertor? Refleti sobre os lugares que ela gostava de ir e, sem hesitar, mais verdadeira e impulsiva do que achava ser possível, fui atrás.

Cheguei ofegante no planetário da cidade. A escuridão da sala seria um empecilho em minha jornada. Olhei por cima até perceber que uma cabeça solitária não tem altura suficiente para ser vista por detrás das poltronas. Vaguei fila por fila, em meio ao brilho das estrelas artificiais de um céu que pertencia a todos. Pensei ter visto algo semelhante a mim bem à frente, mas era apenas uma coruja relaxando com seu amargo charuto. Me olhou, piou, não entendi, parti.

Prossegui meu caminho em direção ao prédio dele. A cabeça sempre foi contra nosso amor, certamente a encontraria lá, o afrontando, exigindo explicações ao inexplicável, palavras ao indizível e imagens congeladas aos mais vivos sentimentos. Olhei para cima, curvei meu corpo dolorido até visualizar o décimo andar: a luz da sala estava acesa. Desviei das poças d’água e levantei com força a grade do antigo elevador, sentindo cada vértebra se romper, causando indescritível agonia. Subi.

O apartamento estava aberto... Estranhei. Atravessei a sala iluminada e ouvi gritos afobados, urros selvagens vindos de uma cabeça e de um homem que quase sempre negou qualquer outra parte de seu corpo. Ironias fantásticas, ambos se voltaram para mim, me analisaram de cima a baixo.

Fui esquecida velozmente em nome da discussão dos dois sobre o que deveria ser feito em relação aos três. Não compreendi o porquê do apego pela argumentação, mas me limitei a pegar o que era meu de volta. Precisava da cabeça mais por medo do que poderia causar aos outros do que por necessidade vital.

Fui até ela e me mordeu, a desgraçada. Larguei de uma só vez e foi rolando pela cama até parar no travesseiro, muda como eu. Os segundos de silêncio foram insuportáveis:

Agora sabe onde estive sempre que sumia no meio da noite... Disse ele com lágrimas nos olhos em doce amargura.

Ignorei o pranto, voltei à cabeça e a ergui, tentando desviar das mordidas, tapando-lhe a violenta boca. Parecia que queria me dizer algo, então lhe dei a chance de finalmente se pronunciar:

A cabeça você encontrou, agora já podemos ir em busca do coração.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Eu

- Tá rindo de quê?
- De tristeza
- De tristeza? Sei..
- É. Não tem gente que chora de alegria? Eu rio de tristeza.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Felicidade



Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais..

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar na chuva quando a chuva vem
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Marcelo Jenice - Felicidade

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Security


I want security, yeah
Without it I'm at a great loss, oh
Security, yeah
And I want it at any cost
Don't want no money right now
I don't want no fame
But security
I have all of these things
All of these things, well now

Security, yeah
That's all I want from you
Security
And a little love that will be true, oh
Those sweet tender lips
You know they tells me that
You're the one for me
Darling, how can I forget
How can I forget, yeah babe

I want security, yeah
I'm telling you once again, oh now
Security
And I want it in the end, oh
Your sweet tender lips
You know they tells me that
You're the one for me
Darling, how can I forget
How can I forget, yeah now

Come on
With just a little bit of soul
Right now, baby
Darling, everything's gonna be all right
One more time, just one more time, babe
Don't it, don't it sound
Pretty good right now..



terça-feira, 17 de abril de 2012

Pedaço do meu coração

Eu quero que você se sinta
A pessoa mais feliz do mundo
A única capaz de ser pra mim
Um sonho em noite de insônia

Desejo que se satisfaz
Pede muito mais
Sentir gosto de cabelo, de suor
Tanto faz, tanto faz
E te chamam
Amor, amor, amor

Quebra
Em pedacinhos o meu coração de pedra
Quebra
Em pedacinhos o meu coração e guarda
Guarda
Um pedacinho do meu coração contigo
Fica com ele como prova de amor

Você virando noite
Fazendo pose
Não adianta disfarçar
Você quer vacilar

Leva, leva, leva, leva
Até começar a me amar
Me abraça, esquece
Vem falar de alguém
Um beijo solto pelo ar
Onde voar faz sempre bem
Peça mais
Amor, amor, amor, amor

sexta-feira, 13 de abril de 2012

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